Coluna Diamante

Extensão do Jornal Delfos-CE: http://jornaldelfos.blogspot.com.br/
O nome Diamante é por conta do primeiro livro impresso no mundo, o Diamante-Sutra, sem o qual não existiria a impressão como a conhecemos hoje em dia.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

JORNALISMO DIGITAL E DEMONIZAÇÃO DA INTERNET


JORNALISMO DIGITAL E DEMONIZAÇÃO DA INTERNET

Desta vez não tenho como concordar plenamente com a opinião expressa no Observatório da Imprensa sobre o mau uso das mídias digitais para com o jornalismo, embora exista, mas é fato que toda mídia terá algum tipo de manipulação por trás, mesmo a digital. 

A internet desde seu começo vem sendo demonizada, assim como a televisão o é ainda hoje, e assim como os livros e a própria escrita também já foi, às vezes até determinados livros queimados na Inquisição e muitos ainda são demonizados ainda hoje. 

Demonizar não é a solução, terão que se adaptar à novas realidades, mas o jornalismo em si nunca morrerá. Enquanto a ABRAJI-Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo- dá cursos na internet para blogueiros e os reconhece como jornalistas independentes, os demais jornalistas, principalmente os diplomados, temem a internet.

Vamos lembrar que tem informação que só veicula na internet porque vários canais têm medo de dar as certas informações, quando não somente receio ou mesmo para manipular a população. A irresponsabilidade não está somente nos meios digitais, mas também a mídia oficial por muitas vezes é bastante irresponsável e também comete erros crassos, por querer e sem querer também.

Por exemplo a Rede Globo, que apoiou a ditadura no Brasil, denunciado no mesmo programa Observatório da Imprensa, pode ser uma rede confiável? A Rede Record, que é do Edir Macedo, que já disse em vídeo gravado odiar religião e cria um templo para arrebanhar mais fiéis além de estar metido em outros escândalos, pode ser confiável? A própria TV Cultura que demitiu o historiador Heródoto Barbeiro por fazer certas perguntar ao candidato José Serra é confiável?

A verdade é que toda notícia jornalística deve ser fundamentada, porém, sites como o Twitter por exemplo vez por outra dão furos de reportagens que mais tarde vão para a própria T.V. assim como os blogs e sites também servem aos próprios jornalistas e grandes jornais como meio ensaio para criar a impressão do dia seguinte.

Inclusive entrevistei um dos jornalistas investigativos mais ativos no Brasil, impresso no Jornal Delfos nº10 e publicado também em blogs, que quase foi assassinado por bater de frente com prefeitos e ex-prefeitos, derrubou 6, através da criação de um jornal comunitário. 

O jornalista investigativo Fábio Oliva, que hoje faz parte da ABRAJI e ganhou um prêmio por bravura me explicou porque devemos dar chance também a jornalistas independentes e que não é o simples diploma que faz um jornalista, apesar de importante para aprimoramento.

O fato é que a internet está aí e os jornais vão não morrer mais se reinventar. Sites e blogs não são inimigos dos jornais, mas um aparelho paralelo a que pode ser usado para difusão e aprimoramento do jornalismo. A internet não é a grande antagonista, muito pelo contrário, ela faz com que os cidadãos tenham acesso também a voz, aumentando a interação, coisa que as outras mídias fazem muito pouco.

O caminho não é demonizar, mas aprender a usar os novos meios digitais a favor da informação, do jornalismo virtual e investigativo. 

Aqui reproduzo a pergunta número 4 da entrevista que fiz com ele:

"AP: 4_ Houve no Brasil há algum tempo uma ação de proibição aos jornalistas sem diploma de atuam na área. Até um projeto de lei nesse âmbito foi para a última instância de votação no Supremo Tribunal Federal, que, no fim, foi anulada por ser julgada inconstitucional.

Saiu no programa "Observatório da Imprensa" da "TVE-Brasil" que nos Estados Unidos existem curso de mestrado em 2 anos para jornalistas não formados na área. Já no Brasil, não existe isso, contudo, existem cursos on-line de capacitação.

Gostaríamos de saber o que você pensa a respeito. Você acha que deveria existir esse curso de mestrado para jornalistas não formados no Brasil?

FO: Não duvido que a academia possa ser extremamente útil ao aperfeiçoamento de quem tem vocação e escolheu o jornalismo para profissão. Mas jamais fará de alguém que não tem vocação, que não tem o jornalismo no sangue e a determinação de sê-lo nas ventas, um bom jornalista.

Sou favorável a duas coisas: 1) que seja preservado o direito de quem já exerce a profissão há muitos anos de continuar a exercê-la, independentemente de diploma; e 2) que sejam criados mecanismos capazes de possibilitar a graduação de quem já exerce a profissão sem diploma e deseje se graduar.

Uma legislação que não preveja estas duas possibilidades consistiria em uma novatio legis in pejus. Ou seja, numa nova lei que traria prejuízos se aplicada a fatos anteriores. Tal coisa é abominável.

Há por esse país inteiro milhares de jornalistas não formados que exercem com dignidade e profissionalismo o ofício, sustentam suas famílias e desempenham papel de excepcional importância para a sociedade.

Como também há jornalistas bandidos. Isso ocorre em todas as profissões. Também há juízes bandidos, advogados bandidos, médicos bandidos e por ai vai. O diploma de jornalismo não elimina o jornalista bandido.

Há muitos jornalistas com "canudo" que são verdadeiros bandidos. Mas não há que se generalizar, nem em relação aos formados, nem aos não-formados."


Ateu Poeta
24/04/2015
Vídeos sobre o que falo de Edir Macedo, de Heródoto, tranzição da TV Cultura para a Record e da Globo:


 (http://rederecord.r7.com/video/herodoto-barbeiro-diz-que-serra-foi-responsavel-por-sua-saida-do-roda-viva-50cff6ea92bbc6b48de0cf9a/
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Reprodução completa da entrevista de Ateu Poeta, presidente do Jornal Delfos ao jornalista investigativo Fábio Oliva, da ABRAJI e do Jornal Folha do Norte:

ENTREVISTA AO FOLHA DO NORTE

http://plageangel.blogspot.com.br/2011/06/entrevista-ao-folha-do-norte.html

Entrevista on-line do "Jornal Delfos" do Ceará ao colunista "Fábio Oliva", do jornal Folha do Norte, de Minas Gerais.

Esta é a 2a entrevista do Jornal Delfos.

Escolhemos o Folha do Norte por ser um jornal comunitário, assim como nós, só que com jornalistas bem mais experientes na área, dentre eles se destaca Fábio Oliva, que nos concedeu entrevista via e-mail em 28 de maio de 2010.

Fábio ficou famoso por apurar denúncias que puseram a baixo o cargo de vários prefeitos de sua cidade. Hoje ele faz parte da ABRAJI, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, e tem se destacado a cada dia, tanto que foi citado pelo jornal O Povo, num curso sobre contas públicas, como exemplo de como um jornal comunitário pode mudar a História.

Então, vamos à entrevista que este grande jornalista nos concedeu:

Ateu Poeta:
1: _ Sabemos que sempre houve ataques a jornalistas, mas não na mesma proporção que hoje em dia. Na America Latina está acontecendo inclusive de assassinatos freqüentes, às vezes a equipes inteiras.

O "Jornal Delfos" ficou sabendo que você também já foi alvo de agressões, por causa do seu trabalho no jornal "Folha do Norte", conte-nos um pouco como isso ocorreu e por quê.

Fábio Oliva:
Eu estava a caminho do Ministério Público, onde entregaria uma série de fotografias que mostravam a presença de trator da Prefeitura de Januária arando terras da fazenda do ex-prefeito Valdir Pimenta Ramos.
Quando estava sobre o passeio em frente ao Fórum de Januária, saíram detrás de uma caminhonete três irmãos advogados.
Eles se revesavam na ocupação de funções públicas ligadas à área jurídica no município e, nessa qualidade, alguns deles foram responsáveis pela emissão de pareceres jurídicos com datas retroativas ou emitidos no bojo de licitações sabidamente fraudulentas. Esses fatos já haviam sido divulgados por mim no jornal Folha do Norte.
Dois deles estavam armados de revólveres. Fugi do local na garupa de uma motocicleta que passava e cujo piloto me ajudou. Como não houve disparo, os três advogados responderam a um processo criminal perante o Juizado Especial Cível.
Fizeram transação penal, ou seja, trocaram o processo pelo pagamento de uma multa. Cada um pagou R$ 600,00 a três entidades filantropicas e tudo ficou por isso mesmo. É a vida.

AP: 2 _O "Folha do Norte" assim como o "Jornal Delfos" trata-se de um jornal comunitário. Segundo relato do jornal "O Povo", você conseguiu derrubar alguns gestores no município onde o seu jornal funciona. O jornal "O Povo" chamou você de jornalista investigativo, inclusive existe uma "Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo".

Gostaríamos de saber como se deu o caso das investigações sobre os tais prefeitos corruptos e qual a diferença de um jornalista comum para um jornalista investigativo.

FO: Primeiro é preciso esclarecer a razão do surgimento do jornal Folha do Norte. Quando criamos a ONG de combate à corrupção em Januária/MG, não conseguíamos emplacar uma matéria na mídia existente.
A TV local e duas rádios pertencem à família do ex-deputado federal "sanguessuga" Cleuber Carneiro. A rádio comunitária pertencente a uma entidade social, o Serviço de Promoção do Menor (Servir) quase não podia nos dar espaço, porque dependia de aproximadamente 20 funcionários da prefeitura, entre professores e outros, para poder funcionar.
Um jornal, o Tribuna do Vale, pertence a um cunhado do ex-prefeito João Ferreira Lima (um dos cassados). O outro jornal, "A Voz do Povo", é mantido em nome de "laranjas" mas, de fato, pertence a um ex-secretário de Fazenda que ficou milionário em sua passagem pela prefeitura. Dai tivemos que criar um jornal para dar voz às ações de combate à corrupção.

A diferença básica entre um jornalista investigativo e os demais é a seguinte: Normalmente o jornalista divulga notícias do cotidiano.
O jornalista investigativo acaba produzindo a própria notícia e não apenas relatando fatos do dia a dia. Ele investiga, escarafuncha, garimpa informações as mais dispersas, junta provas, concatena fatos dispersos, até chegar a uma conclusão.
Às vezes uma reportagem dessas, por seu alto grau de complexidade, demora semanas, meses e, às vezes, até anos para ser concluída. É um misto de trabalho policial, de investigador, com o trabalho de jornalismo.

AP: 3_ O jornalismo é uma profissão muito arriscada, principalmente, hoje em dia. Nesse mês, inclusive, houve um ataque a um jornalista cearense em Juazeiro do Norte quase fatal.

Gostaríamos de saber, o que levou você a ser jornalista. Por que você escolheu esta profissão?

FO: A verdade é que quem se dedica ao jornalismo não escolhe a profissão. A profissão é que o escolhe. A vocação de servir, o desejo de ser útil a um número indeterminado de pessoas e causas vem primeiro.
Depois é que a pessoa escolhe como vai se dedicar a isso, emprestando um pouco do seu tempo e talento a essas coisas e causas. Alguns então se dedicam ao voluntariado, outros o jornalismo.
Mas há, por exemplo, quem escolha ser um "médico sem fronteiras", ou "advogado sem fronteiras" e assim por diante.
Meu avô era escritor. Como não sabia datilografar, fazia os manuscritos e eu os datilografava. Assim tive contato com as letras bem cedo. Gostei e nunca mais parei. Comecei no jornalismo como revisor no antigo "O Jornal de Montes Claros". Tinha de 16 para 17 anos.
Depois fui promovido a "foca", atuei nas editorias de cidade e política. Mais tarde fui assessor de imprensa da Associação Comercial e Industrial de Montes Claros; correspondente do jornal "Diário do Comércio", de Belo Horizonte e, em 2007, tive a felicidade de ter uma de minhas reportagens escolhidas para representar o Brasil no "Prêmio Ipys de Jornalismo Investigativo".

AP: 4_ Houve no Brasil há algum tempo uma ação de proibição aos jornalistas sem diploma de atuam na área. Até um projeto de lei nesse âmbito foi para a última instância de votação no Supremo Tribunal Federal, que, no fim, foi anulada por ser julgada inconstitucional.

Saiu no programa "Observatório da Imprensa" da "TVE-Brasil" que nos Estados Unidos existem curso de mestrado em 2 anos para jornalistas não formados na área. Já no Brasil, não existe isso, contudo, existem cursos on-line de capacitação.

Gostaríamos de saber o que você pensa a respeito. Você acha que deveria existir esse curso de mestrado para jornalistas não formados no Brasil?

FO: Não duvido que a academia possa ser extremamente útil ao aperfeiçoamento de quem tem vocação e escolheu o jornalismo para profissão. Mas jamais fará de alguém que não tem vocação, que não tem o jornalismo no sangue e a determinação de sê-lo nas ventas, um bom jornalista.
Sou favorável a duas coisas:
1) que seja preservado o direito de quem já exerce a profissão há muitos anos de continuar a exercê-la, independentemente de diploma; e 2) que sejam criados mecanismos capazes de possibilitar a graduação de quem já exerce a profissão sem diploma e deseje se graduar.
Uma legislação que não preveja estas duas possibilidades consistiria em uma novatio legis in pejus. Ou seja, numa nova lei que traria prejuízos se aplicada a fatos anteriores. Tal coisa é abominável.
Há por esse país inteiro milhares de jornalistas não formados que exercem com dignidade e profissionalismo o ofício, sustentam suas famílias e desempenham papel de excepcional importância para a sociedade.
Como também há jornalistas bandidos. Isso ocorre em todas as profissões. Também há juízes bandidos, advogados bandidos, médicos bandidos e por ai vai. O diploma de jornalismo não elimina o jornalista bandido.
Há muitos jornalistas com "canudo" que são verdadeiros bandidos. Mas não há que se generalizar, nem em relação aos formados, nem aos não-formados.

AP: 5_ Por fim, gostaríamos que você deixasse aqui uma mensagem para aquelas pessoas que se interessam pela função de jornalista.

FO: É uma profissão maravilhosa. Ajudar a um número indeterminado de pessoas é uma coisa maravilhosa, qualquer que seja a profissão que lhe permita fazer isso. Mas, fazer isso através do jornalismo tem um toque especial.

Não se pode perder de vista, no entanto, que o maior ganho será sempre o reconhecimento público e profissional, a satisfação pessoal. Infelizmente é uma profissão muito mal remunerada. Quase ninguém ficará rico no jornalismo, se o praticar honestamente.

Ateu Poeta
Presidente do Jornal Delfos

Minas-Ceará, via e-mail
Entrevista realizada com o jornalista Fábio Oliva
Em 28/05/2010
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Descrição do 3º vídeo acima: Publicado em 31 de out de 2012


.Documentário - - História da Rede Globo e a Ditadura Militar- Roberto Marinho Muito Alem

Rede Globo e a Ditadura Militar
video que foi proibido no brasil

Foi há exatamente dez anos, em 1993. O documentário Muito Além do Cidadão Kane, da BBC havia sido apresentado em uma única sessão no Museu da Imagem e do Som (MIS). Até aí, tudo bem, e a repercussão do filme não teria nada de extraordinário, não fosse a decisão do então secretário da cultura do estado, Ricardo Ohtake, de demitir o programador do MIS, Geraldo Anhaia Mello, por ordens diretas do então governador Fleury, o ?marechal do Carandiru?. Para quem não é de São Paulo, o governo Fleury é considerado um dos mais corruptos da história do estado, só perdendo para o de seu padrinho político Orestes Quércia. A justificativa de Ohtake era que o filme estaria sendo exibido sem a autorização de seu diretor, Simon Hartog, mas todos diziam que o motivo real eram as pressões vindas diretamente de Roberto Marinho.

mediatamente inicia-se violenta polêmica na imprensa, e Geraldo Anhaia Mello, longe de se intimidar, parte para o contra-ataque através do jornal ?Folha de São Paulo?. Tão logo toma conhecimento do caso, o próprio Simon Hartog envia autorização liberando a veiculação irrestrita do documentário em território nacional, e assim o pretexto para censurar o filme cai por terra. Não resta ao MIS outra alternativa senão realizar sessões gratuitas do filme, que atraem multidões que nunca teriam tomado conhecimento do documentário sem a celeuma em torno de sua censura. Eu fui uma das pessoas que compareceu a uma dessas sessões sempre lotadas, e apesar de ir muito ao cinema, foi o único filme a que assisti até hoje que foi aplaudido de pé no final. Homenagem mais do que merecida, não só ao filme (que dizia o que ninguém no Brasil tinha peito de dizer), mas à coragem e determinação do jornalista Geraldo Anhaia Mello. 

Só para finalizar, queria dizer que nunca o Império Globo teria o poder que tem sem o apoio pra lá de camarada da ditadura militar. Se a Globo é hoje essa unanimidade de maquiavelismo e de prejuízo à liberdade de informação do povo brasileiro, devemos essa não só ao Roberto Marinho mas principalmente, ao regime canalha e assassino que a concebeu, regime que entregou em 1985 um país quebrado, arrasado, humilhado, cheio de cadáveres insepultos de estudantes e operários. Hoje, novamente a Globo encontra um parceiro poderoso na pessoa de Rupert Murdoch, o porta-voz de Bush, que faz da parceria Globo/ Time-Life uma mixaria. Nós brasileiros, precisamos estar de olho para não ficarmos à mercê por outros 40 anos da lavagem cerebral e manipulação do monopólio do plim-plim. Que a história não se repita jamais
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Texto expresso no Observatório da Imprensa sobre o "suicídio do jornalismo"

IMPRENSA EM QUESTÃO > OSSOS DO OFÍCIO
O suicídio do jornalismo
Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 21/04/2015 na edição 847

No início dos anos 1990, a internet ainda engatinhava no Brasil mas já começavam os debates sobre o futuro do jornal impresso e do próprio jornalismo diante da nova tecnologia. Em 1993, aFolha de S.Paulo promoveu seu primeiro fórum internacional para tratar desse tema. Um dos convidados, Warren Hoge, então chefe de redação adjunto do New York Times, sintetizou a crítica aos que exaltavam a hipótese de dispensar essa mediação essencial: os jornais, disse, dão ao público “aquilo que ele não sabe que precisa”.

Falava-se, então, em “informação personalizada”, ainda oferecida pelos jornais de sempre – o que hoje chamamos de “mídia tradicional” –, a partir da qual o público seria incentivado a montar seu próprio jornal. Seria uma expressão da liberdade de escolha. Na época, escrevi que esta seria “uma fórmula que expande o velho princípio do ‘direito de saber’: o público não apenas tem esse direito como já sabe o que quer e sabe onde encontrar. A consequência lógica é, por um lado, a segmentação da audiência e a formação de um círculo vicioso que termina por se revelar o contrário da diversidade prometida: a constituição de guetos fechados em torno de seus próprios interesses” (Jornalismo em ‘tempo real’. O fetiche da velocidade, ed. Revan, 2002, p. 170).

Rapidamente a hipótese de o público montar seu próprio jornal por esse método foi substituída pela exaltação do protagonismo desse mesmo público na produção de notícias. Sem qualquer base para argumentação, porque deveria ser evidente que esse público, de modo geral, não tem acesso às fontes que poderiam fornecer informações nem competência ou tempo para apurar o que quer que seja. Porém, com a ajuda de teóricos afamados que surfam a onda do momento e só produzem espuma, mas têm grande audiência inclusive e sobretudo no meio acadêmico, essa ideia libertária do jornalismo-cidadão se disseminou. E ajudou a minar o terreno em que se pratica o jornalismo profissional, dentro ou fora das grandes empresas de mídia.

Jornalismo caça-cliques

Ao mesmo tempo, as grandes empresas, no Brasil e no exterior, não parecem ter clareza do que devem fazer diante do campo aberto pela internet e, em vez de priorizarem o jornalismo, que exige distanciamento e rigor, cedem progressivamente ao imediatismo e à cacofonia das redes. A justificativa corrente é a de que a alteração no hábito de leitura e consumo de notícias provocada ou favorecida pela disseminação da tecnologia digital jogou o jornalismo num ambiente inédito e imprevisto, que retirou das empresas o sustento da publicidade tradicional. O resultado seria a caça ao clique, como forma de contabilizar uma massa de leitores atraente para o mercado publicitário, ainda que seja difícil estabelecer preferências de consumo – e, portanto, definir o “público-alvo” – num meio tão dispersivo e volátil como o virtual.

Ocorre que a caça ao clique é a morte anunciada do jornalismo, porque o que costuma excitar o público é a surpresa, o escândalo, o bizarro, o curioso, o grotesco. Em síntese, o fait-divers, que sempre foi elemento periférico para os jornais de referência.

O caminho da decadência

A gravidade da situação pode ser medida pela pesquisa publicada pela Quartz, site de notícias de negócios ligado à revista The Atlantic, que põe o Brasil na liderança de consumo de notícias no Facebook: dos 80% que dizem frequentar essa mídia, 67% afirmam utilizá-la para consumir notícias. Restaria indagar o que se classifica como “notícia”: há muitos anos, uma pesquisa sobre a audiência de programas radiofônicos populares indicou que boa parte daquele público considerava “notícia” a publicidade de promoções de supermercado, feita pelos animadores durante os programas.

Ao compartilhar o gráfico, a jornalista Lúcia Guimarães comentou:

“Assim como queimamos a etapa da leitura nos anos 60, passamos do vasto analfabetismo para um sistema sofisticado de TV que uniu o país (…), não vamos migrar para plataformas de jornalismo digital abrangente. Jornalismo, não importa se de papel, ou digital, é um pilar da democracia. Vamos passar direto ao desmonte da experiência da informação consequente.

“No momento em que a mídia no Brasil e nos EUA (New York Times a vários outros a bordo) considera ceder grande parte de sua independência à plataforma do Facebook (saem os links, Facebook vira o anfitrião do conteúdo jornalístico, controla o tráfego), as consequências, no caso do Brasil, são especialmente assustadoras. Já temos uma geração pouco educada e não leitora chegando à idade adulta convencida de que se informar é circular por aqui [pelo Facebook]”.

É a mesma geração que se “forma” nas escolas fazendo pesquisa pela internet sem a devida orientação, com resultados previsivelmente catastróficos.

Varal digital

Lúcia recorda que “a informação jornalística, para o Facebook, é apenas um arranjo para compor o cenário de outras plataformas mais lucrativas” e lembra um comentário de Mark Zuckerberg, definidor de seu conceito de notícia: “Um esquilo morrendo no seu jardim deve ser mais relevante para o seu interesse do que pessoas morrendo na África”. “A relevância a que se refere Zuckerberg”, diz Lúcia, “é a decidida pelo seu orwelliano algoritmo. Uma fórmula matemática decide o que é notícia neste varal digital.”

Daí a sua conclusão sobre o fim do jornalismo – não o jornalismo impresso, mas o jornalismo como o conhecemos e valorizamos –, como quem marcha “de olhos vendados na prancha do navio em direção ao mar”. Lúcia conclui:

“Informar não é agradar. Quem sabe, uma nova geração vai imaginar alternativas para esta alienação que já é claramente refletida no debate político brasileiro, contaminado por polarização e desprezo por fatos.

“Mas, a médio prazo, não posso me sentir otimista sobre este dilema no Brasil.

“Os novos destituídos não serão necessariamente os explorados num mercado de trabalho injusto. Serão os que não sabem, não querem saber ou não sabem o que mais há para saber”.

“Não sabem o que mais há para saber” porque estarão num tempo em que não haverá mais jornais para “dar ao público aquilo que ele não sabe que precisa”.

Assim se deformam os cidadãos involuntariamente alienados, como observou Janio de Freitas em sua coluna de domingo (19/4) na Folha de S.Paulo, ao criticar a falta de divulgação de informações relativas às discussões a respeito da reforma política, de óbvio interesse público: “Informação e ação pública andam a reboque. (…) Nem sempre quem cala consente. Depende de estar ou não informado”.

Reinventar o jornalismo?

Pensemos agora no quadro que vivemos atualmente: a onda de demissões nos principais jornais do país, parcialmente resultante da conjuntura econômica brasileira, que leva as empresas a recorrer ao mecanismo de sempre e reduzir custos cortando profissionais, justamente aqueles que poderiam garantir qualidade ao seu “produto”. Nessas horas retornam com força os apelos em torno da “reinvenção” não só do jornalismo mas do próprio jornalista, supostamente não qualificado para atuar nesse novo ambiente que, ao mesmo tempo, ninguém sabe como funciona ou para onde caminha.

Bem a propósito, o estudante de jornalismo Ricardo Faria lembrou de artigo da revista New Yorker de janeiro deste ano, um texto irônico sobre o “rei dos caça-cliques”, um criador de sites desenhados especificamente para viralizarem e lucrarem com cliques de Facebook (ver aqui). “É o retrato do espírito desta web”, comentou, destacando um trecho significativo em que o “empreendedor” explica seu processo de trabalho:

“Se eu fosse responsável por uma empresa de hard news e quisesse informar as pessoas sobre Uganda, em primeiro lugar eu procuraria descobrir exatamente o que está acontecendo por lá. Então buscaria algumas imagens comoventes e histórias que provocam emoção, faria um vídeo – de menos de três minutos – com palavras e estatísticas simples e claras. Frases curtas e declarativas. E, no final, diria às pessoas algo que elas pudessem fazer, algo que as levasse a se sentir esperançosas”.

“Aquela frase de Saramago ressoa na minha cabeça: ‘De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido’”, desabafou o estudante.

Mas trata-se de um estudante crítico. Quantos não verão aí uma saída “criativa” para a crise da profissão?

Não. Mudam as tecnologias, não os fundamentos. O jornalismo não precisa se reinventar: precisa corresponder ao ideal que o justifica e o legitima socialmente. Já se disse inúmeras vezes que o imediatismo e a cacofonia das redes tornam o jornalismo ainda mais necessário para filtrar, em meio à profusão de banalidades, boatos, falsidades e incorreções, o que é informação confiável e relevante. É, além de tudo, uma tarefa que exige compromissos éticos fundamentais, e isto não é retórica vazia: ética diz respeito a princípios e finalidades. Ética pressupõe autonomia e liberdade. Exige, portanto, uma luta permanente, sobretudo quando as empresas escancaram seu desrespeito a esses pressupostos.

Fábrica de produzir infelizes

Mas para fazer jornalismo é preciso contar com profissionais competentes. A recente onda de demissões atingiu muitos dos mais experientes. Alguns saíram a pedido, insatisfeitos com a falta de perspectiva de valorização na empresa. Os baixos salários da maioria e a falta de um plano de carreira são reclamações recorrentes. Entre os jornalistas começa a se difundir o sentimento de que esta é uma profissão para quem tem até 30 anos e não tem filhos, e que as redações são uma fábrica de produzir infelizes: gente mal paga e que não se reconhece no que faz. Considerando que o jornalismo é uma atividade à qual as pessoas se dedicam por prazer, não é difícil calcular o tamanho da frustração.

Reinventar-se e tornar-se empreendedor de si mesmo é o mantra desse mercado que desmantela qualquer perspectiva de estabilidade e joga purpurina sobre a dramática realidade da precarização, da qual as propostas de terceirização, atualmente em discussão e cinicamente vendidas como um benefício aos assalariados, são o exemplo mais acabado.

As mudanças no mundo do trabalho têm levado contingentes inteiros de trabalhadores qualificados a se degradar – perdão, a se “reinventar” –, obrigando-os a abandonar habilidades duramente aprendidas para se transformarem em pau para toda obra. Simplesmente porque é preciso sobreviver, e porque não se vislumbra saída imediata.

A crise que estamos enfrentando, e que não é de hoje, nos impõe uma resposta à altura, e esta resposta não será individual, como sugere a ideia de “reinventar-se”, que ignora a perspectiva coletiva, sem a qual nada muda. Para os jornalistas, em particular, essa resposta não pode dispensar a luta pela recuperação da dignidade e pela exigência do respeito aos princípios que norteiam a profissão.

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/o-suicidio-do-jornalismo/