Coluna Diamante

Extensão do Jornal Delfos-CE: http://jornaldelfos.blogspot.com.br/
O nome Diamante é por conta do primeiro livro impresso no mundo, o Diamante-Sutra, sem o qual não existiria a impressão como a conhecemos hoje em dia.

sábado, 16 de maio de 2015

DESCUBRA PORQUE O CHITA É TÃO VELOZ

http://colunadiamante.blogspot.com.br/2015/05/descubra-porque-o-chita-e-tao-veloz.html DESCUBRA PORQUE O CHITA É TÃO VELOZ
por Roff Smith

[Vídeo] Câmera lenta mostra porque o guepardo é uma máquina de correr

Eles atingem 100 quilômetros por hora em três segundos, são os animais terrestres mais rápidos da Terra, mas não podem fugir do perigo da extinção.

A expectativa deixa eletrizado o grupo. As lentes das câmeras ficam prontas para disparar. Pelo menos 11 vans de safári, repletas de turistas empunhando teleobjetivas, se amontoam em torno de uma solitária acácia no Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia. Durante a última meia hora, Etta, uma fêmea de guepardo, acomodou-se à sombra com seus quatro filhotes, espreitando uma manada de gazelas-de-thomson que apareceu sobre uma colina próxima.

De repente, um dos guias dá um berro, as gazelas fogem correndo e Etta dispara. O felino esguio é rápido demais para ser seguido com o olhar, confundindo-se com a relva como se fosse uma bala. Em meio a uma nuvem de poeira, o drama termina com a captura de uma gazela. Enquanto Etta arrasta a carcaça para junto dos filhotes, estes emergem da mata ansiosos para começar o banquete. As vans se aproximam segundos depois, com os motoristas competindo para estacionar os veículos nas posições mais favoráveis às filmagens de seus clientes.

Os guepardos ocupam um espaço intrigante no imaginário humano. Belos e exóticos, velozes como carros esportivos e dóceis, eles são uma espécie de celebridade do mundo selvagem, paparicados por cineastas e publicitários de todo o mundo. Basta fazer uma pesquisa com os termos “guepardo” e “imagens” em seu computador e centenas de milhares de resultados vão aparecer – fotos de moda, anúncios de carros de luxo e até imagens desses felinos de estimação no banco traseiro de Mercedes conversíveis.

Essa presença forte na cultura popular poderia dar a impressão de que os guepardos estão tão seguros na natureza quanto na imaginação popular. Não é bem assim. Na verdade, eles são poucos e estão ficando cada vez mais raros. Séculos atrás, eram encontrados desde o subcontinente indiano até a costa do mar Vermelho, assim como em boa parte da África. Por mais ligeiros que sejam, contudo, eles não puderam escapar aos longos tentáculos da humanidade. Hoje, o guepardo-asiático, a elegante subespécie que abrilhantava as cortes de soberanos na Índia, na Pérsia e na Arábia, está quase extinto. Na África, a quantidade de guepardos despencou em mais de 90% ao longo do século 20 devido aos agricultores, criadores e pastores, que os expulsaram de seus hábitats e aos caçadores que capturaram filhotes para o lucrativo tráfico de animais exóticos de estimação. No fim das contas, restam agora menos de 10 mil guepardos em liberdade na natureza.

Mesmo nas reservas da África, eles estão submetidos a uma pressão intensa. Esquivos e de constituição delicada – são os únicos grandes felinos incapazes de rugir –, são empurrados para áreas periféricas pelos leões, bem mais poderosos fisicamente. Um exemplo é o parque do Serengeti e a vizinha Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia. Em conjunto, as duas áreas abrigam mais de 3 mil leões, mil leopardos e apenas 300 guepardos – que vêm atrás dos leões também no setor do turismo. “Eles despertam o interesse das pessoas que fazem o segundo safári”, diz o guia Eliyahu Eliyahu. “No primeira, elas querem mesmo é ver os leões. O problema disso é que, quando há uma população grande de leões, a gente jamais vai ver muitos guepardos.”

Uma raça diferente

Se os guepardos parecem uma raça à parte, é porque de fato o são. Não só constituem uma espécie distinta dos outros felinos como também pertencem a outro gênero, com apenas um membro: eles mesmos. O nome de seu gênero, Acinonyx, vem das palavras em grego que significam “espinho” e “garra” e se referem à curiosa garra semirretrátil, uma característica que não se encontra em outro felino. À diferença dos leões e dos leopardos, cujas garras retráteis servem para destroçar as presas e escalar árvores, os guepardos possuem garras mais parecidas com as travas nas sapatilhas de um corredor de velocidade e têm a mesma função delas: possibilitar aderência firme e aceleração rápida.

Tudo nele é adaptado para a velocidade – uma arrancada pura, bruta e explosiva. Se colocarmos um guepardo e um Lamborghini lado a lado em uma autoestrada, não é fácil ganhar uma aposta sobre qual tem a arrancada mais rápida. Ambos vão de zero a 100 quilômetros por hora em menos de três segundos, mas o guepardo pode chegar a 70 já nos primeiros passos. Graças à coluna flexível e aos membros longos e esguios, o felino pode avançar em saltos que superam os 7,5 metros. Um atleta de primeira linha que conseguisse saltar essa distância uma única vez, após uma corrida, já poderia considerar a possibilidade de participar dos Jogos Olímpicos. Quando está em sua velocidade máxima, um guepardo dá esses saltos ao ritmo de quatro vezes por segundo.

Na Antiguidade, essa capacidade sobre-humana conferiu aos guepardos uma aura de seres de outro mundo. Há quase 4 mil anos, os egípcios foram os primeiros a domesticá-los como animais de estimação e também a imortalizá-los em imagens gravadas em túmulos e templos. Na Índia, na Pérsia e na Arábia, as corridas de guepardos – ou “leopardos de caça”, como eram conhecidos – tornaram-se um espetáculo popular entre os aristocratas. Nas cortes dos imperadores mongóis, viraram uma espécie de tema artístico, sendo celebrados em pinturas e tapeçarias, no folclore e em poemas. Guepardos de estimação eram adornados com coleiras de joias e tinham lugar de destaque nos cortejos régios.

Até hoje eles são muito apreciados na Arábia Saudita e nos países do golfo Pérsico, onde um filhote chega a valer mais de 10 mil dólares. “Os jovens ricos costumam comprar um guepardo para fazer par com seus carros esportivos”, comenta o biólogo queniano Mordecai Ogada. “Hoje é basicamente uma coisa de novos-ricos.”

Em países como os Emirados Árabes Unidos, os guepardos circulam em um limbo jurídico. “A importação deles é ilegal”, diz Ogada, “mas, uma vez que lá chegam, o comércio é liberado. Os animais contrabandeados são facilmente ‘legalizados’, como se tivessem sido criados em cativeiro. É difícil determinar a origem dos filhotes, a menos que sejam feitas análises genéticas para identificá-los como membros de alguma subespécie endêmica em uma região específica.”

Não é possível avaliar o impacto do tráfico sobre a população remanescente, mas há indícios de que o comércio ilegal de filhotes é um negócio de grande escala. Mesmo uma pesquisa básica na internet revela ofertas de “criadores” em locais como Dubai. No ano passado, vários contrabandistas foram detidos na Tanzânia e no Quênia, e houve rumores de que filhotes estavam sendo vendidos em lugares tão distantes quanto os Camarões. “Desconfio que o problema é bem maior do que se imagina”, diz Yeneneh Teka, o responsável pela Diretoria de Proteção e Desenvolvimento da Fauna Silvestre da Etiópia. “Há muito dinheiro envolvido e, como os traficantes de drogas e armas, os mercadores de animais silvestres contam com redes bem organizadas.”

No ano passado, as autoridades etíopes realizaram operações contra o tráfico de fauna e instituíram um programa de treinamento para guardas e funcionários aduaneiros. Esse empenho maior de fiscalização mostrou-se compensador quando funcionários interceptaram um carregamento de filhotes de guepardo que estavam sendo contrabandeados para a Somália. “Na fronteira, enquanto verificavam os documentos de um caminhão, os guardas ouviram ruídos de algo sendo arranhado em um latão supostamente cheio de gasolina”, conta Teka. “Quando o abriram, toparam com cinco filhotes minúsculos em péssimas condições.” Um dos filhotes morreu. Os outros quatro, após semanas de cuidados veterinários, foram levados para um santuário de fauna silvestre, mantido pela Fundação Born Free e situado uma hora ao norte de Adis Abeba, e lá vão ficar até o fim da vida.

“Esses resgatados nunca serão capazes de viver em condições naturais”, diz Ogada. “Não temos como ensiná-los a reconhecer e evitar predadores como leões e hienas.” Embora alguns felinos tenham sido reintroduzidos com êxito em reservas cercadas na África do Sul, as savanas abertas são um lugar mais perigoso para os guepardos crescerem. “Os órfãos não teriam a menor chance em um lugar como o Serengeti”, conclui Ogada.

Até mesmo para as fêmeas de guepardo é difícil criar sua prole em condições naturais, em que a mortalidade entre os filhotes chega a 95%. Ou seja, é provável que a grande maioria dos filhotes não saia viva das tocas em que nasceram. Eles são mortos por leões e hienas, morrem por exposição ao clima ou acabam sendo abandonados pelas mães, que não conseguem ser caçadoras hábeis o suficiente para alimentá-los. Na realidade, muitas fêmeas de guepardo passam a vida toda sem criar um único filhote do nascimento à maturidade.

Mãezona guepardo

Todavia há algumas e raras mães que, de um modo ou de outro, conseguem superar os obstáculos e ter um surpreendente sucesso na criação dos próprios filhotes e até mesmo se encarregam da prole de outras fêmeas. Excelentes caçadoras e exímias conhecedoras do ambiente em que vivem, essas supermães acabam abatendo um animal quase todo dia, ao mesmo tempo que asseguram a proteção da prole no ambiente aberto da savana africana, bem debaixo do focinho de leões e hienas. Sabe-se que uma dessas supermães, uma fêmea de 7 anos batizada de Eleanor, deu à luz e criou pelo menos 10% de todos os guepardos adultos na região sul do Serengeti.

“Não conheço nenhum outro carnívoro cuja sobrevivência da espécie dependa tanto do sucesso de tão poucas fêmeas”, diz Sarah Durant, da Sociedade Zoológica de Londres. Sarah é a diretora do Projeto Guepardo do Serengeti, uma das mais longas pesquisas sobre carnívoros já realizadas. Agora em seu 38o ano, o projeto documentou as vidas e as linhagens maternas de gerações de guepardos do Serengeti. É um trabalho esfalfante em meio ao calor e à poeira, exigindo horas de deslocamentos pela savana em castigados jipes atrás dos felinos, os mais esquivos da África. Foi a laboriosa pesquisa de Sarah que deixou evidente o papel crucial das supermães.

Embora hoje as linhagens maternas da população de guepardos do Serengeti sejam bem conhecidas, a situação é outra quando se trata de dados sobre a paternidade. A bióloga Helen O’Neill espera em seu Land Rover perto do local onde três guepardos irmãos – Mocha, Latte e Espresso, conhecidos como os Garotos Café – estão escarrapachados à sombra de uma árvore balanites. A tarefa de Helen é conhecida como “cata caca”, ou seja, a coleta de excrementos de guepardos específicos e identificados. Com base neles, os cientistas da Sociedade Zoológica conseguem extrair amostras de DNA na expectativa de preencher os ramos paternos das árvores genealógicas dos guepardos do Serengeti.

Conclusões provisórias sugerem que as fêmeas de guepardo são muito mais promíscuas do que se pensava: em até metade de suas ninhadas, os filhotes têm pais diferentes. “Achamos que esse tipo de acasalamento múltiplo talvez seja benéfico, em termos genéticos, no contexto de um ambiente incerto”, diz Sarah. “Seria como um tipo de aposta múltipla, por parte das mães, a fim de aumentar a chance de sobrevivência dos filhotes.”

bem longe das pradarias ensolaradas do Serengeti, em um final de tarde frio e límpido no inverno, um solitário guepardo macho segue por uma crista montanhosa salpicada de neve. Após uma pausa para marcar com seu odor uma árvore, ele some do campo de visão de uma câmera automática de vídeo que gravava sua passagem.

Esse dispositivo camuflado é uma das 80 câmeras automáticas instaladas em vários pontos do Dasht-e Kavir, uma remota região no planalto central do Irã, com o objetivo de obter um vislumbre de um dos mais raros e esquivos dos grandes felinos: o guepardo-asiático. “É como um sonho que se realiza quando conseguimos algo assim”, comenta o biólogo iraniano Houman Jowkar a respeito da sequência de imagens, que dura apenas 27 segundos. Jowkar participa do Projeto de Conservação do Guepardo-Asiático, iniciado em 2001 pelo Departamento do Meio Ambiente do Irã na tentativa de impedir a extinção da população remanescente desses guepardos. “Temos guardas florestais que viveram e trabalharam nessas montanhas durante anos e nunca viram um guepardo vivo”, diz Jowkar.

O programa de câmeras automáticas ajudou os cientistas iranianos a estimar a quantidade de guepardos que restam e os locais onde vivem – informações cruciais para articular uma estratégia de conservação. “Temos sorte de que esses felinos são malhados”, conta Jowkar. “Com base nos inconfundíveis padrões de manchas, podemos identificá-los um a um e, então, estimar a população e a distribuição dos animais.”

Mesmo assim, não vai ser fácil salvar o guepardo-asiático. Sua derrocada remonta ao apogeu do Império Mogul, quando as caçadas com felinos se tornaram populares. Conta-se que um imperador mogul chegou a ter mais de 9 mil guepardos durante os 49 anos de seu reinado.

De lá para cá, o contraste é assombroso. Nos dez anos em que foram instaladas dezenas de câmeras, os pesquisadores iranianos só obtiveram até agora 192 imagens fugazes. Elas registram 76 espécimes macilentos, quase tudo o que resta de uma nobre subespécie do guepardo que antes palmilhava quase toda a Ásia. Esses raros sobreviventes se mantêm a duras penas. Perseguindo antílopes e ovelhas em íngremes encostas rochosas, eles competem com lobos e até com seres humanos, para quem suas presas são também uma bem-vinda fonte de nutrição.

“Eles estão vivendo no fio da navalha, no limiar do que é ecologicamente possível”, comenta Luke Hunter, presidente da Panthera, um grupo internacional dedicado aos grandes felinos, e participante do projeto iraniano de conservação dos guepardos. “O mais intrigante, porém, é que esses guepardos não foram empurrados para essas montanhas agora. Estão ali há milhares de anos. As pessoas não se dão conta de quão resistentes e versáteis são esses animais.”

Quanto a isso, não resta dúvida. Apesar de sua vulnerabilidade, os guepardos são um dos mais robustos e espertos sobreviventes no planeta, suportando tanto os rigorosos invernos na estepe iraniana quanto o calor abrasador nos uédis saarianos. “Não são velozes apenas”, diz o biólogo argelino Farid Belbachir, que vem instalando câmeras automáticas nos montes Ahaggar, na Argélia, na expectativa de captar imagens do guepardo-saariano, também ameaçado de extinção. “Eles entendem o terreno e descobriram como aproveitar os trechos estreitos dos uédis para lançar seus ataques, restringindo as possibilidades de fuga das presas.”

Caça sem riscos

De volta ao parque do Serengeti, estamos no meio da tarde, com um gosto quente de poeira no ar e nuvens ameaçadoras de chuva no horizonte. Há uma hora e pouco, Etta vem se aproximando de um macho de gazela e está a cerca de 40 metros do animal. “É cedo para dizer se Etta vai virar uma supermãe”, diz Sarah Durant. “É sua primeira ninhada. Mas o fato de os quatro filhotes já terem saído da toca e até agora estarem bem cuidados é um sinal encorajador.”

O macho de gazela é corpulento e saudável. Tem muita carne. Etta avança mais alguns passos rápidos e furtivos e aí se agacha e espera, dando a impressão de um corredor na posição de largada, concentrado e pronto para disparar. Um minuto tenso se arrasta, e depois outro. Então, de repente, sem nenhum motivo evidente, Etta se levanta e se afasta com calma. Algo não lhe parecia certo – um bafo de hiena na brisa ou talvez o odor de leões. Seja o que for, para essa mãe de quatro filhotes pequenos, sozinha no Serengeti, a gazela gorda não vale o risco. Ela chama os filhotes para que a sigam, e juntos saem trotando em meio à luz violeta do final de tarde.
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